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O conflito entre EUA e Irã: histórico e consequências

Emeritus |07 abril, 2020 | 6 - minutos para ler

3 de janeiro de 2020. Os EUA levam a cabo um ataque com drones no Iraque e executam Qassim Soleimani, chefe da Força Quds, a unidade de elite da Guarda Revolucionária Iraniana, e visto por muitos como o segundo homem mais poderoso do Irã — atrás apenas de Ali Khamenei, Líder Supremo do país persa. O evento marca a escalada definitiva no conflito entre EUA e Irã e liga o alerta máximo para a possibilidade de uma guerra entre as nações.

A vingança veio no dia 7 do mesmo mês, quando a Guarda Revolucionária bombardeou com 22 mísseis duas bases com tropas americanas na região, sem fatalidades. Antes dos acontecimentos de janeiro em Bagdá, um civil americano havia sido morto em um ataque miliciano a uma base militar no Iraque — o ataque teve resposta e iniciou a rápida escalada nas hostilidades.

O blog da Emeritus traz para você um panorama sobre o conflito entre EUA e Irã, um resumo com os principais acontecimentos históricos que explicam a relação entre os países e o que a economia e política brasileira tem a ver com essa história. Boa leitura.

O conflito entre EUA e Irã em 4 partes

A relação entre persas e norte-americanos nem sempre foi tão ruim quanto hoje. Ou, melhor, ela passou por idas e vindas no último século, tantas quanto a política interna iraniana. Trazemos uma breve retrospectiva histórica para você entender os principais eventos que levaram à situação atual.

O golpe

Eleito primeiro-ministro iraniano em 1950, Mohammed Mossadegh promoveu a nacionalização do petróleo iraniano, que na época teve amplo apoio popular e parlamentar. A medida desagradou americanos e, em especial, britânicos, que descobriram o petróleo na região e comandavam a exploração. Mossadegh, além de antagonizar com EUA e Reino Unido, não mantinha boas relações com o monarca persa, o Xá Mohammad Reza Pahlavi.

Em 1953, com apoio da CIA e do MI6, uma série de eventos levam à deposição de Mossadegh e à centralização do poder na figura do Xá. O período entre 1953 e 1979 seria marcado pela ocidentalização do Irã e uma relação de proximidade e amizade entre iranianos e americanos.

A Revolução Islâmica

Após o golpe de 1953, a população iraniana, na sua maioria muçulmana xiita, assistiu a um governo liberal em questões sociais e autoritário na política. Em uma ponta, o Xá se recusava a condenar o sexo antes do casamento e o álcool; em outra, manifestações eram reprimidas com violência. A situação econômica do país se deteriorou na década de 1970, com inflação e escassez de bens à venda.

A popularidade do monarca apenas caía e, em dezembro de 1978, manifestações tomaram as ruas da capital Teerã. O exército gradualmente passa a apoiar os manifestantes, e a Revolução ganha forma. O aiatolá Ruhollah Khomeini, líder maior do islamismo xiita no país, funda a República Islâmica.

Ainda no mesmo ano, a embaixada americana em Teerã é invadida, e 52 funcionários são feitos reféns por 444 dias. No ano seguinte, as relações diplomáticas entre os países são suspensas — status que se mantém até hoje.

Também em 1980, o Iraque, comandado por Saddam Hussein, ataca o Irã, dando início à chamada Guerra Irã-Iraque, que dura até 1988 e é um dos mais sangrentos confrontos do pós Segunda Guerra. Os EUA, em oposição à Revolução Islâmica, apoia os iraquianos.

Da questão nuclear à escalada

Os EUA levantam suspeitas sobre o programa nuclear americano pela primeira vez em 2002, na sequência do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001. Em 2006, o Irã confirma o enriquecimento de urânio, com fins alegadamente pacíficos. As dúvidas levam a uma série de sanções econômicas que só são aliviadas em 2015, com a assinatura de um acordo nuclear.

O apoio iraniano a grupos antiamericanos, como o Hamas e o Hezbollah, entre outras questões, leva as relações entre os países a se deteriorarem cada vez mais. Em 2018, Donald Trump anuncia a retirada dos americanos do acordo nuclear e sobe o tom nas sanções aos iranianos. Em 2019, enfim, os EUA classificam a Guarda Revolucionária Iraniana como organização terrorista.

Os dois maiores impactos que uma guerra entre EUA e Irã teria na economia do Brasil

guerra entre eua e irã

Você provavelmente conhece aquela história sobre o bater das asas de uma borboleta no Brasil causar um furacão no Texas. O tal do Efeito Borboleta é uma ótima lembrança para pensarmos o que significa viver em uma economia globalizada. Poderia o lançar de um míssil no Oriente Médio encarecer o seu almoço? Sim, definitivamente.

Abaixo falamos sobre o impacto de decisões externas no mercado brasileiro e os dois principais fronts que podem ser bagunçados pelo conflito entre EUA e Irã: o comércio e o petróleo.

Comércio

Começando pelo mais simples, uma escalada no conflito entre asiáticos e norte-americanos — somado a um previsível alinhamento brasileiro junto aos EUA — afetaria, primeiramente, o comércio entre Irã e Brasil. A balança comercial entre os dois países é positiva para o lado brasileiro: são US$ 2,26 bilhões em exportação (0,94% do total) contra US$ 39 milhões importados do país persa (0,022%). Os dados são de 2018.

Se, por um lado, as exportações não chegam a 1% do total, por outro, em uma situação efetiva de guerra, é natural que se forme zonas de apoio e restrição comercial. No geral, conflitos entre grandes nações são um fator de encolhimento do comércio global e, em especial, criaria uma série de dificuldades no acesso à região do Oriente Médio.

Hoje, os chamados países árabes (grupo de 22 nações que não inclui o Irã) representam 10% das exportações nacionais. Um dos destaques é a chamada carne halal (animal abatido seguindo os preceitos do Corão, o livro sagrado do Islamismo). O Brasil é o maior produtor mundial de carne bovina halal e vice-líder em frango.

Em resumo, uma escalada no conflito pode levar o Brasil a abandonar de vez a postura conciliadora e relativamente neutra que marcou a diplomacia brasileira do pós-Segunda Guerra e assumir uma outra mais agressiva.

O barril de petróleo

O Irã é o décimo maior produtor mundial de petróleo cru — atrás, inclusive, do Brasil. Porém, não é esse número que mais preocupa. O Estreito de Ormuz, uma faixa de oceano entre o país persa e os Emirados Árabes Unidos, é essencial para todo o comércio marítimo do Golfo Pérsico. Um quinto de todo o petróleo comercializado no mundo passa por ali.

O Irã ameaçou fechar o estreito por várias vezes nos últimos anos e, se levasse as ameaças a cabo, provocaria uma crise no suprimento energético de todo o globo, além de um baque incontornável na economia de países vizinhos não alinhados.

O barril de petróleo, que chegou a ser negociado acima dos 80 dólares em 2018, teve alta após o ataque americano em Bagdá, mas voltou a operar em queda. O barril estava sendo negociado próximo aos 50 dólares no fim de janeiro deste ano (2020) — o coronavírus também deve colaborar para manter o preço baixo. Enquanto isso, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) estuda tomar ações para limitar a oferta e segurar o valor do barril.

Uma recuperação agressiva do preço do petróleo (por questões geopolíticas ou força de cartel) teria efeitos diversos para o Brasil. Se, por um lado, o combustível final aumentaria nas refinarias e na bomba — provocando um efeito cascata nos preços e na inflação —, por outro, é um cenário potencialmente interessante para a Petrobras, que bateu a marca dos 3 milhões de barris produzidos por dia no final de 2019. O fiel da balança, nesse cenário, é a postura do governo federal, que poderia ser mais ou menos intervencionista, controlando ou não o preço do combustível.

Enquanto isso, o PIB brasileiro de 2019 fechou com crescimento na casa do 1,1%, contido por uma forte desaceleração no quarto semestre e abaixo das últimas previsões do governo de 1,2%.

2020, por sua vez, começou sendo definitivamente chacoalhado pela avanço do novo Coronavírus — agora, Convid-19 — que vem provocando alarmismo nas bolsas pelo mundo, atentas aos efeitos sobre a capacidade produtiva global e, em especial, na economia chinesa.

Governos têm respondido com medidas de estímulo ao consumo e à produção, caso dos Federal Reserve, dos EUA, que em reunião extraordinária cortou a taxa básica de juros em 0,5%, agora na faixa do 1% a 1,25.

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